Roberto Piva

Roberto Piva nasceu em São Paulo a 25 de setembro de 1937. Faleceu nessa cidade a 3 de julho de 2010. Ao mesmo tempo em que era um aluno rebelde, expulso de colégios, também frequentava cursos livres (como aquele dedicado a Dante Alighieri por Edoardo Bizzarri, comentado em 20 poemas com Brócoli) e grupos de estudo de filosofia e literatura. Acabaria graduando-se em Sociologia, porém apenas na década de 1970.

Foi publicado pela primeira vez na Antologia dos Novíssimos de Massao Ohno, de 1961. Seu livro de estréia é Paranóia de 1963, ilustrado com fotografias do artista plástico Wesley Duke Lee, também por Massao Ohno. Foi comentado em artigo da revista francesa La Brèche – Action Surréaliste, dirigida por Andre Breton, como “o primeiro livro de poesia delirante publicado em ‘brésilien’”. No entanto, sua repercussão no Brasil foi limitada; subterrânea, pode-se dizer. A imagética e a linguagem livre tiveram como resposta o silêncio da crítica.

Em 1964, publicou Piazzas, também por Massao Ohno – posteriormente relançado pela editora Kairós, em 1980. Abra os olhos e diga ah! saiu em 1976 (Massao Ohno), seguido de Coxas (Feira d Poesia, 1979), 20 Poemas com Brócoli (Massao Ohno, 1981), Quizumba (Global, 1983) e Ciclones (Nankin, 1997).

Com personalidade marcante e incendiária, Piva se confunde com personagens e a história de uma São Paulo que incorpora desde a energia vital de uma juventude contraventora, com ênfase no homoerotismo, à exaltação do misticismo e de uma filosofia representada, entre outros, por Nietzsche: “Eu aprendi com Rimbaud / & Nietzsche os meus / toques de INFERNO”, registrou em Piazzas.

Agitador cultural nos anos 70, foi tema da revista Rolling Stone e um dos responsáveis diretos pela consagração de bandas de rock como Made in Brazil e Joelho de Porco. A repercussão da sua poesia teve um crescimento gradativo. Incluído na antologia 26 poetas hoje de Heloisa Buarque de Holanda (Labor, 1976), foi tema de algumas matérias na imprensa desde a década de 1980, com uma antologia poética em 1985 (pela L&PM). Passou a ser convidado para apresentar-se como poeta ou para dar palestras e cursos, inclusive os “Encontros órficos”, que influenciaram vivamente alguns jovens autores, na década de 1990. Também ampliou-se sua presença em fanzines e outras publicações independentes; principalmente, a revista Azougue de Sergio Cohn e amigos.

No entanto, apenas com a virada do século sua poesia teria uma recepção mais forte. A redescoberta por uma nova geração de leitores se através de esforços de vários atores, com destaque para o Instituto Moreira Salles (IMS), que lançou e divulgou a segunda edição de Paranoia, em 2000. Logo a seguir, naquele ano, o documentário Uma outra cidade, dirigido por Ugo Giorgetti para a TV Cultura, protagonizado por Piva em companhia de poetas seus amigos – Antonio Fernando de Franceschi, Claudio Willer, Jorge Mautner e Rodrigo de Haro – teve uma repercussão marcada por críticas favoráveis. Entre 2000 e 2001, sai em três antologias dedicadas aos melhores poemas do século anterior, preparadas por Claufe Rodrigues, José Neumanne Pinto e Italo Morriconi – que seleciona o poema “A Piedade” para Cem melhores poemas brasileiros do século. Em 2004, mais um documentário, desta vez apenas sobre ele: Assombração urbana por Valesca Dios, adicionando-se a uma filmografia crescente.

Em 2005, o conjunto da obra de Piva passa a ser publicado pela Editora Globo. As Obras reunidas foram lançadas em três volumes organizados por Alcir Pécora, intitulados Um estrangeiro na legião, Mala na mão & asas pretas e Estranhos sinais de Saturno, entre 2005 e 2008. Houve uma revalorização adicional de seu trabalho, atraindo novos leitores. Resultou na publicação de suas entrevistas – Roberto Piva (Azougue, 2010) –, de uma reportagem biográfica – Os dentes da memória por Camila Hungria e Renata D’Elia (Azougue, 2011), em companhia de Antonio Fernando de Franceschi, Claudio Willer e Roberto Bicelli – e de inéditos e dispersos em Antropofagias e outros escritos pela Córrego, em 2016. Paralelamente, cresceu a quantidade de teses, dissertações e ensaios examinando sua obra, permitindo caracterizá-lo como um autor que, hoje, não é apenas lido, porém estudado.

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